opiniões sobre tudo e sobre nada...

Sexta-feira, 12 de Setembro de 2008
"Refugo"

Hoje em dia, houve-se muito falar de violência escolar, talvez pelas proporções e pelo número de incidentes registados e conhecidos. Mas, se formos a analisar bem o caso, percebemos que a violência escolar não é um fenómeno recente e todos nós guardamos, na nossa memória, registos de violência a que assistimos ou de que ouvimos falar. Hoje ouve-se muito falar de roubos, de violência psicológica ou física contra colegas de turma ou de escola e até contra professores. Toda e qualquer manifestação de violência é assustadora, mas ainda mais para aqueles que a sofrem (ou a sofreram!) e não a esquecem, mas não podemos culpar a sociedade de hoje por todos os males que acontecem, uma vez que estas manifestações de violência já vêm de há muito tempo, mesmo antes do 25 de Abril, o que deita por terra toda e qualquer teoria sobre a necessidade de um estado controlador para evitar situações deste ou de outro género. A única diferença será, talvez, e como já referi atrás, só o número de casos e as proporções que assumiram, de resto nada de novo. Quando eu era pequena, lembro-me de vários casos a que assisti e que jamais esqueci, todos eles começados na escola que se transformaram em autênticas perseguições fora dela, quando não aconteciam dentro dela. Um vizinho, alguns anos mais velho do que eu, foi apanhado por um colega mais velho, quase à boca da rua onde morava, e levou aquela que seria a maior surra da sua vida. Tinha brigado com um colega na escola e o irmão mais velho resolvera fazer justiça pelas próprias mãos. O meu colega foi agarrado e espancado. A sorte dele, foram os vizinhos alertados pelos gritos e o choro. Só me lembro de ver o pai a sair de casa a correr, logo seguido da mãe, alertado por uma vizinha que tocara à porta. Do outro lado da minha casa, um outro vizinho meu, (este da minha idade), foi também apanhado por um colega escondido atrás de uma das oliveiras, do olival que ladeava o largo onde vivíamos, que o apanhou também desprevenido. Foi a única nota negra naquele dia de sol quente e radioso. Eu chegara à janela da sala, e atrás das persianas da minha sala, assisti a tudo angustiada, sem saber como fazer para alertar a mãe dele, que se encontrava em casa. A cada grito dele, eu olhava ansiosamente para a janela da sala deles, indiferente ao que se passava naquele largo. Felizmente, e quando eu já me preparava para tomar alguma iniciativa, vi, subitamente a mãe dele assomar à janela e, não conseguindo pôr fim à violência com os gritos, saltou desesperadamente a janela para o ajudar. Não conseguiu muito, uma vez que a irritação do outro não ajudava em nada. Por fim, lá conseguiu puxá-lo por um braço e colocá-lo ao lado dela. Mesmo assim, o outro ainda tentava, de vez em quando, chegar-lhe. Voltando ainda mais atrás no tempo, e na conversa com uma amiga minha, alguns anos mais velha, percebi que a violência contra os professores já existia antes de eu entrar para a escola. Como ela mesma me confessou, ela batera na professora. Angustiada e desesperada, entalada entre uns pais severos e secos e uma professora ameaçadora, ela perdeu a cabeça e explodiu, batendo na professora. Passada a fúria, sentou-se, aliviada. A tensão a que fora submetida, tinha dado os seus frutos. Antes pensara em suicidar-se, mas essa ideia desapareceu-lhe com a surra dada à professora. O marido dela, também se lembra do caso dele. Bateu na professora reagindo à pancada dela e, não obtendo resposta à pergunta sobre o mal que havia feito, voltou-se para ela e deu-lhe umas fortes caneladas. A violência que mais recordo é a da minha professora da primária. Não era sempre, felizmente, mas houve casos de grande violência à qual assisti. Lembro-me particularmente de um relacionado com a minha ex-companheira de carteira. Ela não tinha estudado e estava com dificuldades na leitura de um texto. Eu, na véspera, lembrara-me das ameaças da professora já desesperada, quando saía de casa para ir ao encontro da brincadeira. Sentei-me e repeti aquela lição inúmeras vezes. O mesmo não aconteceu à minha incauta companheira e só me lembro de ver a professora dirigir-se a ela, farta de a ouvir gaguejar na leitura indecisa, e dar-lhe com força tanta pancada na cabeça, que os cabelos loiros dela esvoaçavam de um lado para o outro. Eu estava encolhida na outra ponta da carteira. Estes são só alguns casos de violência, mas outros terão, de certeza, a sua história. O que se deve então fazer? A resposta é clara. Estes alunos violentos precisam de ser ajudados e não é todo o tipo de pessoas, independentemente da licenciatura que possuem, que os conseguem ajudar. Terão de ser pessoas com uma sensibilidade especial e apurada e com uma filosofia de vida particular para lidar com este tipo de alunos, Terão de ser, sobretudo, pessoas com uma grande capacidade de amar. Neste momento, tenho o exemplo de uma amiga minha americana, dotada destas características que está a desenvolver, com sucesso, um trabalho extraordinário com este tipo de alunos. Eu sei avaliar isso porque, desde que comecei a leccionar, há cerca de vinte anos atrás, eu fiquei sempre com as turmas que os outros não queriam e apelidavam de “refugo”.

 

 



publicado por fatimanascimento às 18:45
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Quinta-feira, 24 de Julho de 2008
Bairros como o da Quinta da Fonte

Não é a primeira vez que oiço falar de um caso assim, num bairro com as mesmas características deste, edificado numa cidade do interior, e cuja construção se baseou na mesma filosofia… errada.

Há já muitos anos atrás, ainda andava eu a esquadrinhar o país, naquela vida ambulante que todos os professores têm, antes de se conseguirem efectivar, numa escola perto de casa, quando tomei conhecimento dos conflitos existentes entre habitantes de culturas diferentes, também eles engavetados num bairro com as característicasda Quinta da Fonte. Os habitantes, desconfiados, não conseguiam viver pacificamente uns com os outros, pelos mais diversos motivos e, por vezes, os problemas tornavam-se graves. Já lá vão… 18 anos! Os meus colegas, que se deslocavam para uma vila dos arredores, davam-nos conta dos conflitos graves que ali sucediam periodicamente, revelando todo o culminar de uma tensão que se adivinhava longa. Eles moravam lá perto e tinham de passar pelo foco de insegurança, sempre que se dirigiam para o emprego, e faziam-no debaixo de um medo constante de serem apanhados no meio das questiúnculas, às quais eram alheios. A insegurança era uma realidade dentro e fora do espaço do bairro.

   Uma realidade saltava à vista: a mistura de culturas, raças, etc., no mesmo espaço, não funcionava. A desconfiança e o medo, aliados aos outros problemas sociais prementes, que afectam estas classes mais desfavorecidas, corroíam os corações dos moradores. Depois, não posso deixar de pensar que, embora na teoria, a ideia pudesse ter boas intenções, como afirmavam, ela não passou de uma decisão ingénua, própria de uma política de gabinete que sempre se fez, e ainda se faz, neste país. Para se tomar decisões destas ou outras quaisquer, tem se conhecer bem a realidade social e, para tal, há que efectuar um estudo de campo sério, para se poder tomar as decisões acertadas. Ou talvez a ideia não tivesse tão boas intenções assim, procurando só e rapidamente uma solução para um problema, esquecendo todas as implicações ligadas a tal decisão, e está explicada a existência destes bairros que mais se assemelham à nova versão dos antigos ghettos, onde se colocam os menos afortunados da nossa sociedade, deixando-os abandonados à sua sorte. (Haveria que conhecê-los, para criar condições necessárias ao bem-estar de todos, em vez de os engavetarem daquela maneira, o que não deixa de ser uma forma dos excluir…)

   Agora, das duas uma, ou eles se dão conta disso mesmo e fazem um esforço para se entenderem e viverem o melhor possível juntos, ou então, terão eles mesmos de encontrar a solução ideal para eles, procurando novas paragens. Mas têm de se capacitar que nenhuma destas soluções é fácil…

 



publicado por fatimanascimento às 08:52
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Domingo, 25 de Maio de 2008
A máscara e a política

 

Ao subcomandante Marcos

 

Se olharmos para trás, não é a primeira vez que um herói popular usa máscara. Estou a lembrar-me do famoso Zorro, que, para fazer justiça, a tinha de utilizar, para se defender dos seus inúmeros e poderosos inimigos. E sabemos como esta figura lendária é famosa não só no seu país, como também além fronteiras, para se tornar numa figura lendária mundial, pela justiça dos seus ideais, que aquecem a imaginação, a esperança e a vontade de criar uma sociedade mais justa, onde todos possam ser iguais e felizes. O mundo, tal como nós o conhecemos, com todos os seus defeitos e qualidades, já se vem arrastando assim, desde os primórdios da civilização, o que mostra que nada ou quase nada evoluímos desde então, em termos de mentalidade. Há como que uma força que o puxa para trás, quando se dá uma brecha no muro da ordem ancestral. Uma curiosidade é o que se passa nos países latino-americanos, onde o povo parece permanecer um pouco ao lado do fenómeno político, olhando, antes, para o lado e observando cruamente a sua miséria e a dos seus vizinhos. São estes que lutam, à sua maneira, por uma vida que a política teima em lhes recusar, talvez por ter perdido esses ideais, talvez por os ignorar. São estes heróis anónimos, sem cor política, que, mais tarde ou mais cedo, conhecem a prisão, por reivindicarem direitos que há muitos já deveriam ter sido conquistados. É nestas circunstâncias que há lugar para pessoas como o subcomandante Marcos, (desde já todo um mito social actual, também ele de máscara, para se defender de possíveis perseguidores), e outros idealistas, que, (há falta de ideais humanos e sociais, só abordados pelos políticos tradicionais nas campanhas, e só com o fino intuito de angariarem votos que os conduzam ao poder), à falta de espaço no apertado cerco da política actual, enveredam por caminhos paralelos, procurando alertar as pessoas e o mundo para possíveis alternativas. A verdade é que o mundo está farto de política e de políticos cuja única qualidade é a da manipulação das massas, através da palavra, e que não têm soluções para nada, nem, muito provavelmente, têm a ideia de como resolver os simples problemas com que se deparam diariamente, recorrendo, invariavelmente, ao aumento dos impostos e à política de tapa buracos. A impressão que dá, é que o sistema político, tal como o conhecemos, sejam a democracia ou as ditaduras (sejam elas de que natureza forem), à falta de soluções, e para conservarem a ordem mundial, tal como a conhecemos, recorrem a tudo para nos fazer crer que essas soluções existem. Talvez existam e eu creio que sim, mas é preciso vontade de mudar um sistema pesado com muitos milhares de anos. Acredito que há pessoas que queiram tentar, pelo menos mostram publicamente vontade disso, e é preciso dar-lhes uma oportunidade também. É isso a democracia – a criação de uma sociedade com espaço para todos. Depois, a política, tal como está, com a dança dos políticos nas cadeiras do poder e à frente dos partidos, caras há muito desgastadas pela própria fama, que, muitas vezes, não vai além do aparecimento da cara deles na televisão, (não se sabe muito mais deles), a não ser que muda a cor política, para continuar tudo na mesma, levam as pessoas a alhearem-se da política o que constitui, só por si, uma ameaça à democracia, porque não há democracia sem participação popular. Dêem oportunidade às novas caras… e, talvez, quem sabe, a uma nova era.

 

Fátima Nascimento



publicado por fatimanascimento às 17:06
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