opiniões sobre tudo e sobre nada...

Sexta-feira, 3 de Abril de 2009
Ensinar e educar

Há quem opte por uma e há quem faça as duas. Tudo depende da pessoa. Se as pessoas sabem ensinar e não sabem bem como educar, é bom que optem por não o fazer; se há pessoas que sabem fazer bem as duas, então deverá fazê-lo. Há quem defenda que um bom professor deve fazer as duas. Um dia destes, falei com uma senhora que defendia isto mesmo. Ela própria, durante a sua experiência como professora, desenvolvera as duas áreas.  Eu também faço isso, mas sei que tudo depende das pessoas, primeiro que tudo e volto a reiterar que se a pessoa não sabe como educar (entenda-se educar no sentido de ajudar), então deverá restringir-se à área do ensino. E passo a explicar a razão que me leva a defender esta posição.

Um dia, um aluno de CEF veio ter comigo, pedindo a minha atenção para um assunto sério que o afligia e com o qual nitidamente não sabia lidar. Eu ouvi-o serenamente, até à parte em que ele me contou que já falara com outro colega e o que ele lhe aconselhara. Fiquei gelada e revoltada! Se tivesse sido o meu filho? Como é que um professor, ainda por cima de meia-idade, dá um conselho daqueles a um adolescente? Só se for para o prejudicar! Eu, muito pacientemente, fiz umas perguntas ao aluno, no sentido de o fazer entender que ele já sabia a resposta. De facto, sabia. Ele próprio percebeu que o conselho que o professor não lhe tinha dado o melhor conselho. De facto, tinha sido até o pior! Desculpei o professor em causa, evitando colocá-lo numa posição difícil em relação ao aluno, com aquelas desculpas esfarrapadas que encontramos, no sentido de evitar que um novo problema surgisse. Graças a Deus, o rapaz percebera que algo não estava bem naquele conselho e viera ter comigo. Percebi que para dar conselhos, educar, ajudar uma pessoa é preciso amá-la, antes de mais. Este professor, se não sabia ajudar, (e há pessoas que não sabem), deveria ter admitido isso mesmo e ajudá-lo a encontrar alguém que o soubesse fazer. Outros há, porém, que sabem educar/ajudar e fazem-no sem contudo ser entendido pelos progenitores. Há uns dias atrás, uma colega educou/ajudou um aluno a entender que fizera um disparate. Resultado: o pai foi à escola dizer à professora que se limitasse a ensinar que ele estava lá para educar. Pela atitude deste, percebeu-se que o aluno continuou a fazer o que quis e que não foi mais incomodado. Há alturas que, mesmo sabendo educar/ajudar, não vale a pena fazê-lo, porque há alguém que estraga tudo. E logo um pai, que deveria ficar agradecido com a atenção dispensada ao filho…

 



publicado por fatimanascimento às 19:00
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Quarta-feira, 1 de Abril de 2009
À primeira vista…

As pessoas não querem pensar. Não é que não tenham tempo, simplesmente não se querem dar ao trabalho. Não perguntam, nem colocam outras hipóteses explicativas a qualquer situação presenciada. É aquilo, tem de ser… depois arranjam toda uma estória e incomodam todas as pessoas com as suas teorias. Estas são o tipo de pessoas que vêem chifre em cabeça de cavalo. Eu diria que o bom juiz por si se julga…

Tenho uma vizinha de quem gosto muito, e é para mim como se fosse uma filha e uma irmã mais velha para os meus filhos. Ela entra em nossa casa e sente-se como se estivesse na sua. Há toda aquela familiaridade que só certas pessoas conseguem. Gosto, sempre gostei, da maneira descontraída como ela entra em nossa casa e se dirige ao frasco das bolachas e se põe a conversar enquanto vai dando pequenas dentadinhas. Acontece, geralmente, quando está preocupada.

Um dia destes, a mulher do meu ex-marido veio buscar o meu filho a nossa casa. (Eu não estou cá durante parte da semana, já que estou a trabalhar no Minho.) Aconteceu, nessa altura, que a miúda vinha a caminho de nossa casa. Enquanto o meu filho ouvia as admoestações gritadas pela madrasta, que tivera de vir buscá-lo propositadamente a casa, (quando ela pensava que ele estava na casa dos avós maternos), ela foi entrando em casa, algo incomodada com a situação a que acabava, sem querer, de presenciar, da mesma forma descontraída com que sempre nos habituou e que tanto nós apreciamos. A senhora, ao presenciar a entrada da miúda na nossa casa, e sabendo que só o meu rapaz cá estava, começou a fazer um filme. Preocupou-se desnecessariamente e preocupou todos aqueles com quem tem confiança. Ela pensou que a moça era alguma rapariga com quem o meu rapaz poderia dormir. É daquelas pessoas para quem não existe amizade entre um homem e uma mulher e, alargado o perímetro, os jovens também estão incluídos na sua filosofia. Até porque ele está numa fase perigosa, segundo ela afirmou à minha filha mais velha, uma das confidentes por ela escolhidas. É claro que a minha filha ficou boquiaberta perante tal julgamento. Ainda tentou rebater aquela ideia, mas não conseguiu. Também não queria entrar em muitas explicações sobre o que se passava em nossa casa. Quando regressei, ela contou-me tudo. Por pouco não desatei às gargalhadas. Como era possível? Mesmo não sabendo o que se passava, ela deveria saber que as pessoas não são animais, podem ser monstros, mas não são animais. Há pessoas cujos laços afectivos ultrapassam essas necessidades básicas. Para este tipo de pessoas não… Eu não perderia tempo a escrever sobre isto se não soubesse que há mais pessoas por aí iguais, sempre dispostas a julgar os outros por aquilo que são.

 



publicado por fatimanascimento às 11:23
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Domingo, 11 de Maio de 2008
Trabalho infantil

 

Continuo à espera. Olho para os lados. As pessoas que, tal como eu, esperam a sua vez, parecem indiferentes ao que se passa à sua volta. Só levantam a cabeça, durante longos períodos mergulhada numa revista, para se assegurarem de que não chegara a sua vez. Algumas murmuram conversas privadas, olhando em redor, de vez em quando, como que para se certificarem de que ninguém segue as suas palavras. Alguns senhores idosos dormitam, acordando sobressaltados ao som da campainha que assinala a passagem do número que marca a vez de cada um. Eu, por meu lado, vou ouvindo música com os auriculares, olhando distraidamente para o pequeno ecrã mudo, que emite um programa matinal.

Passado algum tempo, entra um jovem moreno, alto e magro com uma resma de exemplares de um periódico debaixo do braço, bem conhecido do público em geral, e dirige-se ao fundo da sala. Passou rapidamente por mim, como se perseguisse alguém. Uns segundos mais tarde, estava ele a percorrer a primeira das cinco filas de cadeira bem alinhadas, estendendo, desajeitadamente, em movimentos soltos, o exemplar apontado ao peito das pessoas. Falava baixo e mal se ouviam as suas palavras. Ao princípio, a reacção dos presentes foi de choque, para logo crescer para a indignação. Revoltavam-se contra as circunstâncias de vida que levavam aquele rapaz, ainda em idade escolar a trocar a escola por aquela vida. O rapaz aproximou-se de uma senhora que abrira a mala e se dispunha a comprar um exemplar. Ela colocou-lhe algumas questões às quais ele respondeu ao acaso, como se se tentasse libertar de uma mão rígida que, de repente, o agarrasse com força. Falava com a certeza de que aquela conversa não lhe iria resolver os seus problemas. Ele frequentava a Escola da Amadora, entrava às 15h e sim, ele tinha tempo para tudo. A indignação da senhora subiu de tom. Recuou na sua intenção, não pactuaria com situações dessas, porque seria alimentá-las. Tive pena do moço. E, sobretudo, compreendia-o na sua atrapalhação. Ele estava a fazer um trabalho a que estaria, de alguma forma, obrigado, já que se sentia o pouco à vontade que se desprendia dos seus modos no contacto com as pessoas: ele agia como se quisesse desaparecer após o primeiro contacto com os possíveis clientes. Frustrado e desanimado, o rapaz abandonou a sala, perseguido pelas vozes indignadas que, desta vez, se manifestavam contra o governo. Passados uns minutos, entraram duas garotas, com idades compreendidas entre os oito e os catorze anos, com os exemplares daquele periódico. Não sei se estariam unidos por algum laço de parentesco ou apenas pelas circunstâncias da vida que os aproximara. A mais novinha apertava os exemplares contra o peito, com se os quisesse proteger contra as invectivas dos presentes. Atrapalhadas, e algo amedrontadas com a violência da indignação que tomava conta das pessoas, elas saíram precipitadamente. Nunca mais os vi. Penso no que sentiriam após aquela inesperada recepção, tão diferente da habitual indiferença a que estão habituados ou dos gestos distraídos das mãos que se estendem para a solidariedade. Adivinho a batida apressada do coração, a voz estrangulada e a frustração própria daqueles que são as principais vítimas da sociedade, e que não vêem solução ajustada para o seu problema. Vivemos no século XXI, com os problemas sociais dos outros séculos.

 

Fátima Nascimento



publicado por fatimanascimento às 00:05
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