opiniões sobre tudo e sobre nada...

Terça-feira, 5 de Maio de 2009
A força da memória olfactiva

As memórias são algo muito curioso, pelo menos as que se relacionam com a infância. Podem nem estar relacionados com grandes acontecimentos, por vezes, são mesmo detalhes que vivem nos subterrâneos do nosso subconsciente durante quase toda uma vida para, de repente, despertarem e invadirem a privacidade do nosso consciente, como dragões há muito esquecidos e enterrados debaixo das várias camadas de terra. Há muito que não me lembrava disto, há muito que tal não me acontecia… Foi numa manhã, quando entrava na sala dos professores da escola, onde me encontro actualmente a leccionar, quando o meu olfacto me despertou a atenção para um cheiro que se insinuava pelo ar morno da sala. Um cheiro que me fez regressar a lugares recônditos da minha memória. Subitamente, vi-me catapultada para o infantário da minha infância. Para as pequenas mesas, rodeadas de cadeiras do mesmo tamanho, em cima das quais repousava um prato fumegante com umas papas que eu, ainda hoje, não consigo identificar… a não ser pelo cheiro! Não gostava particularmente do sabor mas, à semelhança das outras crianças, comia-a. Não sei se era a refeição da manhã ou do meio da tarde, a noção do tempo perdeu-se no nevoeiro da memória, e a imagem que obtenho dele surge desfigurada. Mas o cheiro ficou gravado, como um resistente fóssil, na minha já longa memória.

  Olhei à minha volta à procura do responsável por tão grande e esforçada viagem ao meu passado longínquo, quando tantas memórias mais recentes parecem ter-se desvanecido como que por magia. Devo ter pensado em voz alta porque a Auxiliar de Educação, responsável pelo bar dos docentes da escola, respondeu de trás do balcão:

  - Professora, acabei de deixar verter o leite fervido! – exclamou, enquanto se atarefava na limpeza do pequeno bico.

  Estava explicado o mistério, mas só em parte: a papa que eu comia no infantário, e que tinham um aspecto esbranquiçado, eram cozidas no leite, e o sabor ao qual nós, as crianças, torcíamos o nariz, era a do das papas que se queimavam ligeiramente e se agarravam ao fundo e às paredes do tacho, criando uma mancha castanha-clara, com a qual todos nos familiarizámos ao longo das nossas vidas. Mas a papa, essa, ainda constitui um mistério guardado no cofre da minha memória. Não a consigo identificar. Nunca mais comi algo que se lhe pudesse assemelhar. A memória olfactiva ficou ligada, definitivamente, à sala do meu infantário, contígua à cozinha do mesmo.

 



publicado por fatimanascimento às 17:56
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Sexta-feira, 12 de Setembro de 2008
"Refugo"

Hoje em dia, houve-se muito falar de violência escolar, talvez pelas proporções e pelo número de incidentes registados e conhecidos. Mas, se formos a analisar bem o caso, percebemos que a violência escolar não é um fenómeno recente e todos nós guardamos, na nossa memória, registos de violência a que assistimos ou de que ouvimos falar. Hoje ouve-se muito falar de roubos, de violência psicológica ou física contra colegas de turma ou de escola e até contra professores. Toda e qualquer manifestação de violência é assustadora, mas ainda mais para aqueles que a sofrem (ou a sofreram!) e não a esquecem, mas não podemos culpar a sociedade de hoje por todos os males que acontecem, uma vez que estas manifestações de violência já vêm de há muito tempo, mesmo antes do 25 de Abril, o que deita por terra toda e qualquer teoria sobre a necessidade de um estado controlador para evitar situações deste ou de outro género. A única diferença será, talvez, e como já referi atrás, só o número de casos e as proporções que assumiram, de resto nada de novo. Quando eu era pequena, lembro-me de vários casos a que assisti e que jamais esqueci, todos eles começados na escola que se transformaram em autênticas perseguições fora dela, quando não aconteciam dentro dela. Um vizinho, alguns anos mais velho do que eu, foi apanhado por um colega mais velho, quase à boca da rua onde morava, e levou aquela que seria a maior surra da sua vida. Tinha brigado com um colega na escola e o irmão mais velho resolvera fazer justiça pelas próprias mãos. O meu colega foi agarrado e espancado. A sorte dele, foram os vizinhos alertados pelos gritos e o choro. Só me lembro de ver o pai a sair de casa a correr, logo seguido da mãe, alertado por uma vizinha que tocara à porta. Do outro lado da minha casa, um outro vizinho meu, (este da minha idade), foi também apanhado por um colega escondido atrás de uma das oliveiras, do olival que ladeava o largo onde vivíamos, que o apanhou também desprevenido. Foi a única nota negra naquele dia de sol quente e radioso. Eu chegara à janela da sala, e atrás das persianas da minha sala, assisti a tudo angustiada, sem saber como fazer para alertar a mãe dele, que se encontrava em casa. A cada grito dele, eu olhava ansiosamente para a janela da sala deles, indiferente ao que se passava naquele largo. Felizmente, e quando eu já me preparava para tomar alguma iniciativa, vi, subitamente a mãe dele assomar à janela e, não conseguindo pôr fim à violência com os gritos, saltou desesperadamente a janela para o ajudar. Não conseguiu muito, uma vez que a irritação do outro não ajudava em nada. Por fim, lá conseguiu puxá-lo por um braço e colocá-lo ao lado dela. Mesmo assim, o outro ainda tentava, de vez em quando, chegar-lhe. Voltando ainda mais atrás no tempo, e na conversa com uma amiga minha, alguns anos mais velha, percebi que a violência contra os professores já existia antes de eu entrar para a escola. Como ela mesma me confessou, ela batera na professora. Angustiada e desesperada, entalada entre uns pais severos e secos e uma professora ameaçadora, ela perdeu a cabeça e explodiu, batendo na professora. Passada a fúria, sentou-se, aliviada. A tensão a que fora submetida, tinha dado os seus frutos. Antes pensara em suicidar-se, mas essa ideia desapareceu-lhe com a surra dada à professora. O marido dela, também se lembra do caso dele. Bateu na professora reagindo à pancada dela e, não obtendo resposta à pergunta sobre o mal que havia feito, voltou-se para ela e deu-lhe umas fortes caneladas. A violência que mais recordo é a da minha professora da primária. Não era sempre, felizmente, mas houve casos de grande violência à qual assisti. Lembro-me particularmente de um relacionado com a minha ex-companheira de carteira. Ela não tinha estudado e estava com dificuldades na leitura de um texto. Eu, na véspera, lembrara-me das ameaças da professora já desesperada, quando saía de casa para ir ao encontro da brincadeira. Sentei-me e repeti aquela lição inúmeras vezes. O mesmo não aconteceu à minha incauta companheira e só me lembro de ver a professora dirigir-se a ela, farta de a ouvir gaguejar na leitura indecisa, e dar-lhe com força tanta pancada na cabeça, que os cabelos loiros dela esvoaçavam de um lado para o outro. Eu estava encolhida na outra ponta da carteira. Estes são só alguns casos de violência, mas outros terão, de certeza, a sua história. O que se deve então fazer? A resposta é clara. Estes alunos violentos precisam de ser ajudados e não é todo o tipo de pessoas, independentemente da licenciatura que possuem, que os conseguem ajudar. Terão de ser pessoas com uma sensibilidade especial e apurada e com uma filosofia de vida particular para lidar com este tipo de alunos, Terão de ser, sobretudo, pessoas com uma grande capacidade de amar. Neste momento, tenho o exemplo de uma amiga minha americana, dotada destas características que está a desenvolver, com sucesso, um trabalho extraordinário com este tipo de alunos. Eu sei avaliar isso porque, desde que comecei a leccionar, há cerca de vinte anos atrás, eu fiquei sempre com as turmas que os outros não queriam e apelidavam de “refugo”.

 

 



publicado por fatimanascimento às 18:45
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