opiniões sobre tudo e sobre nada...

Sexta-feira, 17 de Setembro de 2010
Mundo Kafkiano

Entre os clássicos lidos, posso afirmar que Kafka se encontra entre os meus favoritos. Li a sua Metamorfose. Genial! Para quem não conhece a obra, trata de um homem que trabalha para sustentar a sua família (pais e irmã). Um dia, acorda sem se conseguir quase mexer. Qual não é o seu espanto quando se olha ao espelho e se vê transformado em… mosca gigante. Toda a trama se desenrola em volta deste acontecimento e dos problemas que este filho cria à família com a sua involuntária transformação. Não pude deixar de transportar esta narrativa para a realidade e perceber como é bem real! Nós, seres humanos, reagimos assim! Vemos isso na nossa sociedade. Enquanto trabalhamos e fazemos o que se espera de nós, a vida corre bem. Se algum imprevisto acontece na nossa vida, acarretando todo um peso no meio familiar e social, onde estamos inseridos, as relações complicam-se. A pessoa que contribuía para o bem-estar familiar torna-se, de repente, um estorvo para quem não possuía outras soluções para o seu sustento. A transformação deste homem causou toda a espécie de problemas. Desde os transtornos financeiros que obrigou toda a família a trabalhar, até ao convívio com os hóspedes que alugaram quartos na casa. Tudo correu bem até à descoberta deste. Escusado será dizer o que aconteceu! Toda a narrativa evolui numa transformação dos sentimentos e laços familiares culminando com o isolamento e a consequente morte do indivíduo transformado. O que representou a morte deste para a família? Sobretudo, alívio. Esta situação contada pelo autor, é bem visível na sociedade. Não quer dizer que todos ajam desta forma, mas, de uma forma geral, é assim que encaramos aqueles que são, de alguma forma, diferentes de nós. Talvez por isso mesmo eu não tenha esquecido a obra! Vejo o meu pai, por exemplo, que, com a sua difícil doença se tornou um peso para a minha mãe, que não sabe lidar bem com a situação. Desiludida com a velhice que “preparou tão cuidadosamente”, vê-se a braços com um problema que a transcende. Se juntarmos alguma impaciência (que a faz gritar com ele) para com aquele idoso-criança, tudo se torna mais complicado. Não é uma pessoa difícil, o meu pai. A única exigência é a presença constante de alguém junto de si. Para aliviar os dois, trago o meu pai para junto de mim. Fica sentado no alpendre, onde vê melhor, onde a minha filha mais nova faz os trabalhos e eu partilho com ele cajus. À nossa frente, os eucaliptos agitam-se ao sabor do vento. Fica sentado, calmamente, sentindo a paz que lhe é transmitida. Não dá trabalho. Não é violento. Os meus filhos, e isto preocupa-me, estão a ver o lado da minha mãe, esquecendo-se completamente da doença do meu pai. Não me canso de lhes chamar a atenção para tal, mas parece que não consigo fazê-los compreender isso. Não sei onde estou a falhar. Rio-me com o que me contam, escandalizados. Farto-me de repetir que não quero saber dos outros, quero saber dele! Se os outros não querem compreender, tanto pior para eles! Não há nada pior do que a má vontade!

 



publicado por fatimanascimento às 14:06
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Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
A doce companhia dos clássicos

Quando era pequena e ouvia falar dos escritores clássicos com uma reverência quase religiosa, pensava que seriam leitura só para uma certa estirpe de pessoas. Estes “gigantes da literatura” como também eram designados, pareciam ser autores cuja expressão escrita seria de compreensão restrita, isto é, só alguns os conseguiriam interpretar e, por consequência, digerir/compreender. Logo, para mim, também aborrecidos! Eram, em resumo, algo de inatingível. Foi talvez, por esta razão que eu adiei indefinidamente a sua leitura, escolhendo outros.

  Há tempos, notei que um determinado jornal, já não me lembro ao certo qual, reeditava com o mesmo obras desses clássicos. Era uns livros rectangulares, estreitos e leves que estavam dentro de um caixote à entrada da tabacaria em Guimarães. Despertaram-me a atenção e comecei a ler os títulos e os nomes de autores. Aquele pequenos caixote, onde se reuniam os livros recusados pelos compradores dos jornais, era uma verdadeira mina! Não eram muitos, mas tinham os nomes com que toda a vida me cruzara em conversas. O preço, em si, era bastante acessível e agradável. Tendo horário reduzido e, consequentemente, tempo livre, resolvo comprá-los para iniciar a adiada aventura da sua leitura. Apesar do horário reduzido o tempo não era muito e a leitura de muitos desses autores ficou adiada. Mais tarde deparei com um caixote-prateleira no meio de uma livraria lisboeta, os mesmos livros e novos autores! Resolvi aproveitar a promoção( 1-=1,5 euro, 4= 5 euros e 10 = 9,5 euros). Trouxe os dez. Nunca mais tive oportunidade de os ler, uma vez que outras leituras mais modernas se interpuseram durante o verão. Neste Outono, e com o trabalho escolar, não conseguia ler nada que não estivesse directamente relacionado com escola. Neste momento, estou de baixa com uma terrível dor ciática que começa na base da coluna, mais concretamente na ligação com a bacia, se estende até a meio da nádega direita e continua pela perna abaixo até ao pé. Foi nesta pausa em que me vi obrigada a um repouso forçado, e já medicada, pela segunda vez, (não acertaram à primeira) que me lembrei dos meus amigos clássicos encarcerados dentro das páginas por si escritas como vozes agonizantes dentro de uma masmorra esquecida. Como eram pequenos e leves e a atroz dor ciática serenara um pouco com a medicação, resolvi aproveitar esse tempo em que permanecia imobilizada na cama para os ler. O que lhes posso dizer desses meus amigos autores clássicos? Aconselho-os a retirá-los do altar em que os puseram, não por desmerecimento, mas porque, na verdade, nada têm de inacessível! São verdadeiramente deliciosos. Para terem uma ideia li, desde Março, os russos Máximo Gorki, Tolstoi, Tchecov e Dostoiévski, os checos Rainer Maria Rilke e Franz Kafka, os americanos Thoreau, Stephen Crane, o francês Flaubert, os ingleses e Thomas Hardy e o já meu conhecido, Oscar Wilde… entre outros!

  Aos que gostam de ler, aqui fica o aviso: Não façam como eu! Leiam que se sentirão compensados! Mas, se há uma coisa que aprendi, é que cada livro/autor tem o seu perfil de leitor e não podemos gostar todos do mesmo! Mas só se experimentarmos poderemos saber se gostamos ou não. Eu adorei-os! Queridos clássicos! Obrigado por terem existido!

 

Fátima Nascimento



publicado por fatimanascimento às 18:10
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