opiniões sobre tudo e sobre nada...

Domingo, 3 de Janeiro de 2010
A particularidade do R.

É um miúdo igual a qualquer outro. É um aluno aparentemente igual a todos os outros. Digo aparentemente porque, na realidade, os seus interesses divergem da maioria dos seus colegas. E isto não o faz melhor ou pior que qualquer outro. É um aluno que “sente” o ensino de forma diferente dos outros. É um aluno que não se integra no perfil de ensino tal como o temos. Não sei se se integraria no alternativo tal como ele está criado. É um aluno especial. Já encontrei alguns como ele. Pertence àquela espécie de alunos que fogem da escola. Não, não temos de correr atrás dele. Já não tem idade para tal. Simplesmente evita a escola e as aulas sempre que pode. A matéria nela leccionada não lhe diz muito para não dizer nada. Como tal, foi-lhe criado um currículo próprio. Ainda assim, provavelmente devido à idade já avançada em relação aos colegas, e a evidente diferença de interesses, (ele está integrado numa turma de alunos que se caracterizam por bons resultados escolares) a escola não lhe diz nada. As poucas aulas teórico-práticas que se mantiveram no seu currículo, são evitadas. Mesmo as aulas de Educação Tecnológica e Educação Física eram caracterizadas por um elevado absentismo. A mãe já muitas vezes solicitada pela escola no sentido de responsabilizar o aluno confessa a sua impotência. Do que ele gosta? Do tempo passado na oficina onde aprende um ofício que lhe poderá ser útil no futuro. Ali, ele é um rapaz feliz e realizado. Adora máquinas e adora o trabalho relacionado com a sua desmontagem e montagem. Como tal, e prevendo o malogro do esforço para que este termine o terceiro ciclo, e num esforço desesperado, aliviou-se a carga horária lectiva tornando-a mais atraente. Ainda assim, o aluno não cumpre. Evita-as sempre que pode iludir a vigilância dos adultos. Dada as suas idas de voltas do estágio que está a realizar na oficina local, não há tutor capaz de vigiar capazmente as suas movimentações. Não há pessoal. A escola não tem uma oferta capaz de agradar ao aluno estimulando a sua frequência. Nem as aulas práticas lhe agradam! A Educação Tecnológica, julgada disciplina do seu agrado, não lhe interessou vendo só na oficina uma aprendizagem realmente útil para o seu futuro e que também vai de encontro ao seu agrado. Na escola há outra criança diferente. A Mariana é uma menina dócil embora diferente. Apercebendo-se desse facto, alguns colegas não lhe fazem a vida fácil, metendo-se com ela de uma forma cruel que a incomoda. Ainda que tentando desvalorizar essas situações aos seus olhos (tanto os pais como o pessoal da escola o fazem tentando, desta forma, animá-la) os outros fazem-na sentir diferente, pelo que ela não se sente bem no espaço escolar. Já arranjámos uma espécie de “anjo da guarda” que a protege da crueldade sobretudo dos mais novos. Ainda assim, durante o tempo passado em solo escolar , ela está sozinha ansiando pelo estágio junto das crianças do infantário onde se sente querida.



publicado por fatimanascimento às 22:00
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Terça-feira, 5 de Maio de 2009
A força da memória olfactiva

As memórias são algo muito curioso, pelo menos as que se relacionam com a infância. Podem nem estar relacionados com grandes acontecimentos, por vezes, são mesmo detalhes que vivem nos subterrâneos do nosso subconsciente durante quase toda uma vida para, de repente, despertarem e invadirem a privacidade do nosso consciente, como dragões há muito esquecidos e enterrados debaixo das várias camadas de terra. Há muito que não me lembrava disto, há muito que tal não me acontecia… Foi numa manhã, quando entrava na sala dos professores da escola, onde me encontro actualmente a leccionar, quando o meu olfacto me despertou a atenção para um cheiro que se insinuava pelo ar morno da sala. Um cheiro que me fez regressar a lugares recônditos da minha memória. Subitamente, vi-me catapultada para o infantário da minha infância. Para as pequenas mesas, rodeadas de cadeiras do mesmo tamanho, em cima das quais repousava um prato fumegante com umas papas que eu, ainda hoje, não consigo identificar… a não ser pelo cheiro! Não gostava particularmente do sabor mas, à semelhança das outras crianças, comia-a. Não sei se era a refeição da manhã ou do meio da tarde, a noção do tempo perdeu-se no nevoeiro da memória, e a imagem que obtenho dele surge desfigurada. Mas o cheiro ficou gravado, como um resistente fóssil, na minha já longa memória.

  Olhei à minha volta à procura do responsável por tão grande e esforçada viagem ao meu passado longínquo, quando tantas memórias mais recentes parecem ter-se desvanecido como que por magia. Devo ter pensado em voz alta porque a Auxiliar de Educação, responsável pelo bar dos docentes da escola, respondeu de trás do balcão:

  - Professora, acabei de deixar verter o leite fervido! – exclamou, enquanto se atarefava na limpeza do pequeno bico.

  Estava explicado o mistério, mas só em parte: a papa que eu comia no infantário, e que tinham um aspecto esbranquiçado, eram cozidas no leite, e o sabor ao qual nós, as crianças, torcíamos o nariz, era a do das papas que se queimavam ligeiramente e se agarravam ao fundo e às paredes do tacho, criando uma mancha castanha-clara, com a qual todos nos familiarizámos ao longo das nossas vidas. Mas a papa, essa, ainda constitui um mistério guardado no cofre da minha memória. Não a consigo identificar. Nunca mais comi algo que se lhe pudesse assemelhar. A memória olfactiva ficou ligada, definitivamente, à sala do meu infantário, contígua à cozinha do mesmo.

 



publicado por fatimanascimento às 17:56
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