opiniões sobre tudo e sobre nada...

Sábado, 2 de Outubro de 2010
Heróis anónimos

Não são muitos, por isso são preciosos. E há-os um pouco por toda a parte. E fazem toda a diferença na vida das pessoas. Mesmo na das pessoas desconhecidas. Nunca lhes aconteceu ter o gesto certo, ainda que breve, no momento exacto e fazer a felicidade de uma pessoa? E não é preciso muito. Aliás, está provado que não são precisos grandes gestos para podermos ajudar as pessoas, mesmo as desconhecidas. É preciso boa vontade. E, com esta, podemos construir um pedacinho de céu na terra. Aconteceu isso mesmo, esta manhã, quando fui ao Centro de Saúde da minha área de residência, com a minha filha mais velha. A sala de espera estava repleta. Havia algumas pessoas de pé. Encontrámos lá, entre os pacientes, uma senhora idosa que não sabia ler nem escrever. Para além deste problema que a impedia de resolver convenientemente e com a pressa necessária os problemas, tinha a doença do marido (Alzheimer). Os filhos estavam longe. Contava com a ajuda de uma única sobrinha. Precisava de preencher um papel e não sabia como fazê-lo. Contou-me que uma senhora, empregada daquele centro, se dispusera a ajudá-la e, como prova disso, e passados alguns momentos, aproximou-se uma senhora alta, transpirando simpatia com o tal papel, pedindo à senhora que tirasse cópias dos documentos exigidos e o número de telefone que a idosa não sabia de cor. Repetiu pausadamente o recado até ter a certeza que a senhora tinha memorizado tudo. No fim, deu meia volta regressando ao seu posto para continuar o seu trabalho. Fizera tudo nos momentos de pausa. A idosa, com as lágrimas a afluírem aos olhos gratos e a voz trémula, agradeceu-lhe profundamente. Aquele gesto tinha evitado o desespero da pobre senhora. Era visível o seu alívio. Seguiu-se o comentário das pessoas presentes que notaram a nobreza do gesto manifestando-se agradadas. No final, todos estavam de acordo: as pessoas boas fazem a diferença onde quer que estejam. Na vida de todos, já houve experiências destas, experiências essas que não foram esquecidas e que são relembradas com gratidão. Mesmo nos momentos mais ingratos da vida e, como Sartre já dizia “l’enfer c’est les autres”, quando o mundo parece querer engolir-nos mesmo quando não fizemos mal nenhum, há sempre alguém mais distante ou mais próximo que faz toda a diferença, e sem se pronunciar sobre o assunto. Pessoas discretas mas equilibradas que, percebendo a desumanidade da situação (situações) ajudam, ainda que de forma despercebida, as pessoas acossadas. São estas que fazem toda a diferença. Os heróis existem no anonimato. E não são precisos grandes gestos. Para aquela idosa, a empregada foi uma heroína – a sua!



publicado por fatimanascimento às 10:33
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Domingo, 20 de Setembro de 2009
Heróis

Todos nós tivemos os nossos heróis na infância que, na adolescência, foram substituídos pelos ídolos. (Julgo que muitos adultos ainda esperam um herói.) O que os diferencia uns dos outros é a sua natureza. Enquanto uns emergiram das páginas dos livros, dos desenhos-animados, sendo, sobretudo, fictícios, outros surgiram da obscuridade dos tempos, devido aos actos de valentia que os tornaram imortais. Eles foram muito além das normas que regulavam a vida dos povos, e que nem sempre eram justas, não perdendo eles, nunca, os ideais defensores da dignidade dos seres humanos, sobretudo dos mais desprotegidos. Depois, só surgiram os heróis porque havia vilões que eles combateram. Sempre foi assim e sempre assim será.

O que preocupa é que, quando há heróis, e estes destacam-se por ter a coragem de assumir atitudes que os outros, pelas mais diversas razões, não tomam, isso, geralmente, quer dizer que temos uma maioria, pelo menos aparentemente, amorfa. É sempre difícil ver alguém insurgir-se ou manifestar a sua opinião seja contra ou sobre o que for ou quem for individualmente… e, quando o fazem, as consequências são sempre as mesmas (ou raramente variam) – a perseguição pessoal, que pode ter as mais diversas facetas. Chegados a este ponto, poucos são aqueles que resistem, porque é sempre fácil esmagar uma só pessoa. E é o que acontece aos mais audaciosos que, individualmente, de alguma forma, tiveram a audácia de ir contra o sistema implantado. Se tivermos em mente o que aconteceu em países ditatoriais, onde pessoas desapareceram para sempre, sem deixar rasto… percebemos porque muitos deixam de lado os seus ideais. Nos países, ditos democráticos, o caso é mais complicado. As formas de perseguição ganham contornos nunca vistos, mas são, na sua maioria, mais discretos. Só as pessoas visadas sentem essa perseguição que, aparentemente, nada tem de mais e que, muitas vezes, implica mais do que uma pessoa a perseguir a mesma - sabemos (ou imaginamos) como os tentáculos do poder chegam a todo o lado. Por isso, nestes tempos, tudo parece desenrolar-se ao contrário, e é o herói que é perseguido e perde a batalha. Talvez lhe faltem os aliados com os mesmos ideais e a mesma coragem que o caracteriza, talvez seja o final desse herói que faz com que os outros escolham manifestar-se em grandes grupos, de modo a não serem identificados e a não terem a mesma sorte. Para isso, não é precisa muita coragem… só boa vontade e disponibilidade para defender os seus interesses, porque são, sobretudo, estes que levam as pessoas à rua. Os outros preferem fingir que não vêem… ou talvez pactuem com eles, mesmo silenciosamente. Ou é, simplesmente, cobardia.

 

Fátima Nascimento

 



publicado por fatimanascimento às 11:39
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Domingo, 4 de Maio de 2008
Heróis

Todos nós tivemos os nossos heróis na infância que, na adolescência, foram substituídos pelos ídolos. (Julgo que muitos adultos ainda esperam um herói.) O que os diferencia uns dos outros é a sua natureza. Enquanto uns emergiram das páginas dos livros, dos desenhos-animados, sendo, sobretudo, fictícios, outros surgiram da obscuridade dos tempos, devido aos actos de valentia que os tornaram imortais. Eles foram muito além das normas que regulavam a vida dos povos, e que nem sempre eram justas, não perdendo eles, nunca, os ideais defensores da dignidade dos seres humanos, sobretudo dos mais desprotegidos. Depois, só surgiram os heróis porque havia vilões que eles combateram. Sempre foi assim e sempre assim será.

O que preocupa é que, quando há heróis, e estes destacam-se por ter a coragem de assumir atitudes que os outros, pelas mais diversas razões, não tomam, isso, geralmente, quer dizer que temos uma maioria, pelo menos aparentemente, amorfa. É sempre difícil ver alguém insurgir-se ou manifestar a sua opinião seja contra ou sobre o que for ou quem for individualmente… e, quando o fazem, as consequências são sempre as mesmas (ou raramente variam) – a perseguição pessoal, que pode ter as mais diversas facetas. Chegados a este ponto, poucos são aqueles que resistem, porque é sempre fácil esmagar uma só pessoa. E é o que acontece aos mais audaciosos que, individualmente, de alguma forma, tiveram a audácia de ir contra o sistema implantado. Se tivermos em mente o que aconteceu em países ditatoriais, onde pessoas desapareceram para sempre, sem deixar rasto… percebemos porque muitos deixam de lado os seus ideais. Nos países, ditos democráticos, o caso é mais complicado. As formas de perseguição ganham contornos nunca vistos, mas são, na sua maioria, mais discretos. Só as pessoas visadas sentem essa perseguição que, aparentemente, nada tem de mais e que, muitas vezes, implica mais do que uma pessoa a perseguir a mesma - sabemos (ou imaginamos) como os tentáculos do poder chegam a todo o lado. Por isso, nestes tempos, tudo parece desenrolar-se ao contrário, e é o herói que é perseguido e perde a batalha. Talvez lhe faltem os aliados com os mesmos ideais e a mesma coragem que o caracteriza, talvez seja o final desse herói que faz com que os outros escolham manifestar-se em grandes grupos, de modo a não serem identificados e a não terem a mesma sorte. Para isso, não é precisa muita coragem… só boa vontade e disponibilidade para defender os seus interesses, porque são, sobretudo, estes que levam as pessoas à rua. O resto, preferem fingir que não vêem… ou talvez pactuem com eles, mesmo silenciosamente.

 

Fátima Nascimento



publicado por fatimanascimento às 12:00
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