opiniões sobre tudo e sobre nada...

Sexta-feira, 7 de Agosto de 2009
O ideal da independência

O que sempre me atraiu nos outros países, não é só a paisagem mas todo um mundo cultural subjacente a ela. Conhecer novas línguas, novas pronúncias, enfim tudo aquilo que diferencia e logo caracteriza como país – a sua individualidade cultural. Confesso que não sairia do país se soubesse que o que lá iria encontrar é igual ao existe no nosso país. É isto que nos enriquece como pessoas - a diferença. Quando tive ou tenho oportunidade de sair e estabeleço alguns laços de amizade, sinto nas pessoas uma curiosidade sobre o nosso país que recai também sobre a nossa língua. Muitos querem saber como é esta ou aquela palavra em português para exprimir certo sentimento ou ideia, sentindo-se fascinados pela diferença. Lembro-me de, aqui há alguns anos atrás, um rapaz do país vizinho, pouco mais velho do que eu, pensar que a língua da Catalunha era muito semelhante à portuguesa. Talvez o ideal da independência o fizesse olhar para nós portugueses com um carinho que não nutria por Castela. Mais recentemente, conheci uma moça galega que também dissocia a cultura da sua província da Castelhana, dando voz a toda uma cultura galaico-portuguesa comum à história de ambas as regiões, em determinada época da história. Mais uma vez tive de defender que não tinha a certeza de que assim fosse. O castelhano invadiu todas aquelas regiões e as semelhanças que eles querem ter connosco são cada vez menos perceptíveis, quase não existindo. O que eles admiram em nós é o facto de sermos um país independente de Espanha, há imensos séculos (exceptuando o período de sessenta anos sob o domínio filipino). A nossa língua, factor essencial na nossa independência, embora muito semelhante ao Castelhano tem características e pronúncia próprias que aqueles adolescentes admiram. São jovens de gerações diferentes mas orgulhosos das suas diferenças culturais que os individualizam da restante Espanha. Ambos conseguem ler o português sem grandes problemas, esquecendo-se das semelhanças do castelhano ao próprio português. Ambos vêem nestas diferenças mais do que razões para fundamentarem as suas aspirações a uma possível independência. Falta a vontade política. Ambos conhecem o desespero do país Basco cuja cultura e cuja língua nada têm de semelhante a Espanha e a França, constituindo todo um mundo à parte. Nota-se a diferença quando saímos daqueles países e mergulhamos naquele mundo cultural com raízes que ascendem ao período pré-romano e que nada tem a ver com os dois países pelos quais se encontra dividido. O ideal de independência custa vidas: morreram imensos castelhanos, que quiseram subjugar o povo português, na tentativa de integrar o seu território nas suas muitas províncias, e muitos portugueses para manterem a independência de um território que durante muito tempo aprenderam que lhes pertencia, não por ordem genealógica da realeza mas por vontade popular. Durante todo este tempo, Portugal manteve-se independente graças à vontade de um povo que teimou em acarinhar uma língua com uma estrutura, um léxico e uma pronúncia diferentes. E não é só o caso do nosso país, há muitos casos por essa Europa fora. A única diferença é que uns além da vontade tiveram sorte, outros nem tanto. Este ideal não morre, ao contrário do que se possa pensar, passa de geração em geração e assume contornos mais ou menos pronunciados em determinadas épocas. Mas não morre.



publicado por fatimanascimento às 18:12
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Sábado, 18 de Abril de 2009
“Footloose”

Lembram-se do filme? Um belíssimo filme com muita música e dança à mistura? Com Kevin Bacon, Lori Singer… Comprei-o há pouco num daqueles saldos em que temos a oportunidade de adquirir produtos por menos de metade do preço. E muito boa gente pensa que isso desprestigia um filme! Desenganem-se. Os saldos dão a oportunidade às pessoas que têm pouco dinheiro para investir na cultura. Eu assim fiz. Mas não é disto que quero falar. Vi-o esta tarde na companhia das minhas duas filhas mais novas. E foi incrível perceber como, após tantos anos, aquele filme ainda mexe com as várias gerações! Dei comigo a determinada altura do filme, arrebatada pela batida e a melodia das músicas, a dançar e a cantar como se fosse ainda adolescente. A minha filha mais nova, embora estranhando o meu entusiasmo, no início, acompanhou-me, inventando, ela própria a sua coreografia. A minha filha mais velha, em plena adolescência, olhava-me como se eu tivesse enlouquecido. Ela apercebia-se de uma faceta da minha personalidade que ainda não tivera oportunidade de conhecer. Eu balançava-me com uma ligeireza que me surpreendeu, totalmente entregue ao alegre ritmo sentido dentro de mim, e acompanhando a contagiante música mexendo os braços e as pernas à mistura com os saltos. Sentia-me feliz. Aquela música mexeu com a rapariga que fui e que existe ainda dentro de mim. Normalmente, a imagem que passamos aos nossos filhos é a de pais aborrecidos e chatos cuja existência, perante eles, se resume a apresentar a faceta de educadores. Nada mais errado. (Isto lembra-me uma conversa que tive com uma pequena vizinha que dizia que eu era mais impecável que os pais. É claro que desmistifiquei imediatamente esta ideia, usando os argumentos adequados. Passados uns dias, percebi exactamente o motivo da sua queixa. Era o dia do seu aniversário. No imenso jardim que rodeava a casa não havia crianças a correr ao sabor da sua imaginação. Tudo era controlo, ordem e obediência. Os coleguitas estavam ordenados numa perfeita roda, onde uma bola saltitava de mão em mão.) Nunca assumi esse papel, devo confessar. Para além da liberdade que dou aos meus filhos, converso com eles sempre que têm necessidade disso. Mas não controlo. Se o mundo acabasse amanhã, um dos momentos que eu recordaria com mais prazer seria precisamente este. Nele, elas aperceberam-se da pessoa que eu fui e que guardo em mim ainda e que poucas vezes lhes dei a conhecer. Sinto-me feliz por ter podido partilhar esse momento com elas. Sinto que ele vai perdurar nas nossas memórias mais felizes… Mas, mais do que isso, vou tentar recuperá-lo mais vezes! Sinto que todos saímos a ganhar com momentos destes!



publicado por fatimanascimento às 15:06
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