Não é a primeira vez que oiço falar de um caso assim, num bairro com as mesmas características deste, edificado numa cidade do interior, e cuja construção se baseou na mesma filosofia… errada.
Há já muitos anos atrás, ainda andava eu a esquadrinhar o país, naquela vida ambulante que todos os professores têm, antes de se conseguirem efectivar, numa escola perto de casa, quando tomei conhecimento dos conflitos existentes entre habitantes de culturas diferentes, também eles engavetados num bairro com as característicasda Quinta da Fonte. Os habitantes, desconfiados, não conseguiam viver pacificamente uns com os outros, pelos mais diversos motivos e, por vezes, os problemas tornavam-se graves. Já lá vão… 18 anos! Os meus colegas, que se deslocavam para uma vila dos arredores, davam-nos conta dos conflitos graves que ali sucediam periodicamente, revelando todo o culminar de uma tensão que se adivinhava longa. Eles moravam lá perto e tinham de passar pelo foco de insegurança, sempre que se dirigiam para o emprego, e faziam-no debaixo de um medo constante de serem apanhados no meio das questiúnculas, às quais eram alheios. A insegurança era uma realidade dentro e fora do espaço do bairro.
Uma realidade saltava à vista: a mistura de culturas, raças, etc., no mesmo espaço, não funcionava. A desconfiança e o medo, aliados aos outros problemas sociais prementes, que afectam estas classes mais desfavorecidas, corroíam os corações dos moradores. Depois, não posso deixar de pensar que, embora na teoria, a ideia pudesse ter boas intenções, como afirmavam, ela não passou de uma decisão ingénua, própria de uma política de gabinete que sempre se fez, e ainda se faz, neste país. Para se tomar decisões destas ou outras quaisquer, tem se conhecer bem a realidade social e, para tal, há que efectuar um estudo de campo sério, para se poder tomar as decisões acertadas. Ou talvez a ideia não tivesse tão boas intenções assim, procurando só e rapidamente uma solução para um problema, esquecendo todas as implicações ligadas a tal decisão, e está explicada a existência destes bairros que mais se assemelham à nova versão dos antigos ghettos, onde se colocam os menos afortunados da nossa sociedade, deixando-os abandonados à sua sorte. (Haveria que conhecê-los, para criar condições necessárias ao bem-estar de todos, em vez de os engavetarem daquela maneira, o que não deixa de ser uma forma dos excluir…)
Agora, das duas uma, ou eles se dão conta disso mesmo e fazem um esforço para se entenderem e viverem o melhor possível juntos, ou então, terão eles mesmos de encontrar a solução ideal para eles, procurando novas paragens. Mas têm de se capacitar que nenhuma destas soluções é fácil…
(Ainda a propósito... Outro texto aproximadamente da mesma altura do outro, este acho que foi escrito em 2005, uma vez que o recuperei de um caderno de uma das disciplinas da pós-graduação que fiz nesse ano.)
Falar de religião ou religiões não é, forçosamente, falar de fronteiras. Bem pelo contrário, as religiões, todas elas, em vez de dividirem a população mundial, deveriam uni-la. Como? Embora a prática seja específica de cada religião, e a arquitectura dos templos varie segundo o país/cultura ( as mesquitas, as sinagogas, os templos budistas, etc., toda a população mundial com uma cultura média as consegue reconhecer pelas suas características específicas), contudo, a mensagem é uma só: O AMOR A DEUS, A SI PRÓPRIO E AO SEU SEMELHANTE. Porque será que esta mensagem é tão difícil de compreender, aceitar e pôr em prática?
Eu nasci numa família de classe média baixa, religiosa q. b., fui baptizada, tive uma educação a condizer – frequentei um colégio fundado pelas irmãs de S. José de Cluny – fiz a primeira comunhão e terminei com o crisma. Para além do amor a Deus, da profunda mensagem de Jesus e do seu incomparável exemplo, sempre me ensinaram a respeitar os outros, independentemente da sua raça, credo, cultura, condição social, etc., e é isso que eu tenho tentado fazer durante toda a minha vida.
Ora, eu tive a oportunidade de conhecer pessoas de outras religiões e de conhecer algumas das suas “Leis”. Sim, porque parece que algumas das religiões têm também as suas leis. Uma das que mais me chocou, foi a da Igreja de Cristo dos Últimos Dias ( é mais ou menos este o nome dela) quando uma amiga minha muito querida me disse que eu, pelo facto de ser católica, nunca poderia entrar numa igreja deles, nem mesmo pelo casamento dela. (Eu não me importaria (e até gostaria) de a acompanhar à igreja dela, nesse dia, e até noutras datas festivas. Porque não?) Nessa altura, eu fiquei contente ao perceber como nós, católicos, mantemos as nossas igrejas abertas a todas as pessoas, sem excepção. É esta abertura de espírito que eu admiro nas religiões, sejam elas quais forem.
Uma das pessoas que eu mais admiro e gosto, para além do nosso Papa João Paulo II, é o nosso Dalai Lama, há tantos anos exilado na Índia, e cuja atitude perante o que se passa no seu país, o Tibete, e perante o mundo inteiro que teima em ignorar essa situação é exemplar. Não me repugnaria entrar num templo budista e rezar com eles. Porque não? A linguagem religiosa é una e todos nós, os que rezamos, fazemo-lo pelo bem, seja em que idioma for, seja em que ponto do mundo for. Ou não será assim?
O que mais me assusta e me deprime, são as leis religiosas, a forma como se interpretam e se cristalizam nela. Ora, o mundo está em contínua mudança, para melhor e para pior, como toda a mudança, como poderemos olhar para uma sociedade através de uma lei que já nada tem a ver com ela?
Ao falar com um conhecido meu, um padre e pessoa que eu estimo e estimarei sempre, quanto mais não seja pelos velhos tempos, ele dizia-me que o movimento adepto das leis está a tomar um novo vigor, e deu-me como exemplo as outras religiões, nomeadamente o fundamentalismo muçulmano. Ele não foi muito feliz na escolha e fiz-lhe notar o que se passava com os fundamentalistas. Lembrei-lhe o ódio e o medo que espalhavam por todo o mundo, até nos seus próprios países. Se seguir a lei religiosa é sinónimo de intransigência, medo, exclusão, incompreensão, intolerância, etc., então, os séculos que se aproximam não auguram nada de bom para nós, os fiéis.
A leiga,
Maria de Fátima Dias
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