Há já alguns anos atrás, devido à minha vida nómada, tive de comprar um carro. Como nada é eterno, o outro já tinha dado a sua corajosa contribuição para ela. Como toda a gente que precisa de comprar qualquer coisa, e tem tempo, entrei em várias lojas de carros, não só para admirar os carros, mas, e sobretudo, para ver os preços. Estes, dentro da linha económica que procurava, não variavam muito. O que variava era o preço do dinheiro. Recordo o senhor, ainda novo, que suava para vender o carro que me agradou, mas a financeira à qual estava associada a marca, naquela cidade, jogava com uns juros muito altos. Alargou o nó da gravata, enquanto deixava escapar entre dentes, num sopro, a necessidade urgente de encontrar outra financeira. Em desespero de causa, o senhor chegou mesmo a aconselhar a procurar uma loja da capital, da mesma marca automóvel, cuja financeira, com quem trabalhava, praticava uns juros mais de acordo com a realidade social do país. Ali, num pedaço de tempo, e mesmo apesar de nunca me ter debruçado sobre este assunto, compreendi que eram as financeiras e não as marcas propriamente ditas, pelo menos naquele caso, que eram, em grande parte, as responsáveis pela crise na produção automobilística.
Ainda há pouco, passei por um quiosque onde estava anunciada uma marca automóvel, que anunciava um modelo e o preço a pagar pelos audaciosos, que, e apesar dos tempos difíceis que atravessamos, apresentava um preço que rondava os 400 euros, precedido pela já conhecida expressão a partir de. Não está, aqui, em causa a marca ou o valor do modelo, mas o preço exigido só pode ser pago por meia dúzia de pessoas e elas poderão ser ou não apreciadoras da marca. Se a indústria automóvel já está em crise, tendo já havido despedimentos na mesma, estes preços não vêm ajudar, em nada, a mesma. Só vem prejudicar ainda mais. O que eu não compreendo é a lógica do mercado. Em tempos de crise, como a que atravessamos, este tipo de publicidade dirige-se a que camada social? Como é possível que o dinheiro continue tão caro? Acho que toda agente já percebeu que os grandes ganhos só existem em tempos de vacas gordas. E não me parece que sejam os juros altos que ajudem aos ganhos. Será que eles nunca ouviram falar de concorrência? Ou passa-se nas financeiras
o mesmo que se desconfiou já passar-se com as gasolineiras? Será que combinam entre elas o preço do dinheiro? Se assim for, elas vivem num mundo muito diferente do resto do país. Nem percebo bem onde querem chegar…
Um dia destes, fui abordada, no parque de estacionamento de uma grande superfície, por um senhor, ao serviço da concorrência, que me pediu se poderia dar uma vista de olhos ao meu talão de compra. Ao princípio, fiquei um pouco indecisa, devido à inesperada, e algo insólita, situação. Foi-me explicado que o supermercado, de onde acabava de sair, não autorizava o acesso ao regime de preços praticado por ele, pelo que o senhor se via obrigado a deslocar-se nas imediações do mesmo, para realizar o trabalho encomendado por outra empresa do mesmo ramo. Compreendi a situação do homem, entalado entre duas empresas: uma que o incumbira de uma missão e esperava resultados, a outra, que não o autorizava a desenvolver o trabalho. Facultei-lhe o meu curto talão, da qual ele tomou algumas notas, numa folha A4, de onde sobressaía uma tabela desenhada a negro. Agradeceu e afastou-se, debaixo do sol escaldante, daquela tarde de Junho.
Arrumei os imensos litros de água que comprara, e que dava para encher uma banheira, e, durante a viagem de regresso a casa, pensei no que acontecera, naquele parque de estacionamento. Não está em causa a abordagem do senhor, que se limitou a cumprir ordens, mas a empresa que está por trás dele. Embora o país esteja a passar por uma crise enorme com todo o desemprego, salários em atraso, baixos vencimentos que não suplantam a subida do custo de vida, entre outros, e as empresas só se preocupam com os preços praticados pela concorrência. Todas as grandes superfícies, e não só, devem ter registado uma quebra de vendas, mais ou menos importante, e falo por mim, que me limito a comprar os produtos estritamente necessários. Agora o que eu penso, é que as grandes superfícies devem ajustar os preços à realidade social que temos, e não continuar na velha filosofia de tentar superar a concorrência em termos de preço, no sentido de lhe retirar clientela ou de evitar que a concorrência lhe tire clientes. Esta velha filosofia só tem, para mim, razão de existir, quando estamos perante uma sociedade sã, em termos financeiros, o que não é o caso…
As mentalidades custam mesmo a mudar, até no ramo comercial, onde o modo de operar, indiferente à dura realidade social, continua a ser o mesmo e com o mesmo objectivo – o lucro.
Fátima Nascimento
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