opiniões sobre tudo e sobre nada...

Domingo, 11 de Maio de 2008
Trabalho infantil

 

Continuo à espera. Olho para os lados. As pessoas que, tal como eu, esperam a sua vez, parecem indiferentes ao que se passa à sua volta. Só levantam a cabeça, durante longos períodos mergulhada numa revista, para se assegurarem de que não chegara a sua vez. Algumas murmuram conversas privadas, olhando em redor, de vez em quando, como que para se certificarem de que ninguém segue as suas palavras. Alguns senhores idosos dormitam, acordando sobressaltados ao som da campainha que assinala a passagem do número que marca a vez de cada um. Eu, por meu lado, vou ouvindo música com os auriculares, olhando distraidamente para o pequeno ecrã mudo, que emite um programa matinal.

Passado algum tempo, entra um jovem moreno, alto e magro com uma resma de exemplares de um periódico debaixo do braço, bem conhecido do público em geral, e dirige-se ao fundo da sala. Passou rapidamente por mim, como se perseguisse alguém. Uns segundos mais tarde, estava ele a percorrer a primeira das cinco filas de cadeira bem alinhadas, estendendo, desajeitadamente, em movimentos soltos, o exemplar apontado ao peito das pessoas. Falava baixo e mal se ouviam as suas palavras. Ao princípio, a reacção dos presentes foi de choque, para logo crescer para a indignação. Revoltavam-se contra as circunstâncias de vida que levavam aquele rapaz, ainda em idade escolar a trocar a escola por aquela vida. O rapaz aproximou-se de uma senhora que abrira a mala e se dispunha a comprar um exemplar. Ela colocou-lhe algumas questões às quais ele respondeu ao acaso, como se se tentasse libertar de uma mão rígida que, de repente, o agarrasse com força. Falava com a certeza de que aquela conversa não lhe iria resolver os seus problemas. Ele frequentava a Escola da Amadora, entrava às 15h e sim, ele tinha tempo para tudo. A indignação da senhora subiu de tom. Recuou na sua intenção, não pactuaria com situações dessas, porque seria alimentá-las. Tive pena do moço. E, sobretudo, compreendia-o na sua atrapalhação. Ele estava a fazer um trabalho a que estaria, de alguma forma, obrigado, já que se sentia o pouco à vontade que se desprendia dos seus modos no contacto com as pessoas: ele agia como se quisesse desaparecer após o primeiro contacto com os possíveis clientes. Frustrado e desanimado, o rapaz abandonou a sala, perseguido pelas vozes indignadas que, desta vez, se manifestavam contra o governo. Passados uns minutos, entraram duas garotas, com idades compreendidas entre os oito e os catorze anos, com os exemplares daquele periódico. Não sei se estariam unidos por algum laço de parentesco ou apenas pelas circunstâncias da vida que os aproximara. A mais novinha apertava os exemplares contra o peito, com se os quisesse proteger contra as invectivas dos presentes. Atrapalhadas, e algo amedrontadas com a violência da indignação que tomava conta das pessoas, elas saíram precipitadamente. Nunca mais os vi. Penso no que sentiriam após aquela inesperada recepção, tão diferente da habitual indiferença a que estão habituados ou dos gestos distraídos das mãos que se estendem para a solidariedade. Adivinho a batida apressada do coração, a voz estrangulada e a frustração própria daqueles que são as principais vítimas da sociedade, e que não vêem solução ajustada para o seu problema. Vivemos no século XXI, com os problemas sociais dos outros séculos.

 

Fátima Nascimento



publicado por fatimanascimento às 00:05
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Sábado, 5 de Abril de 2008
Violência nas escolas

A violência é um problema à escala mundial, e é nesta perspectiva que deve ser sempre encarada. Depois, todos nós temos essa violência dentro de nós que precisa só de um contexto favorável para se traduzir, então, numa atitude mais ou menos violenta. Todos os dias entram em nossa casa notícias que mais não são do que manifestações de violência; e, se olharmos atentamente, a nossa sociedade, ela própria é o palco da manifestação dessa mesma violência. Há violência um pouco por todo, começando no próprio ambiente familiar, muitas vezes, ele próprio palco de forte violência, logo, não é difícil que este ambiente tenha eco nas escolas. A solução, se é que a há, para a violência está, na minha opinião, na educação e não na repressão. As escolas têm um papel fundamental no diagnóstico dessa violência, mas há que saber fazer a distinção entre indisciplina e violência, o que nestas idades, nem sempre é fácil, já que eles sentem mais do que pensam, pelo que muitas vezes essa violência vem associada a um sentimento exacerbado que termina numa manifestação de violência espontânea, só contida ou apaziguada na presença de adultos, (nomeadamente de auxiliares que devem controlar melhor os espaços do recreio). O diagnóstico deverá ser feito num observatório e, sendo a escola o local onde os adolescentes passam a maior parte do seu tempo, é o ideal, pois é nela que, quase sempre, acontecem manifestações de violência, dentro ou fora dela. Agora a espécie de violência é que deverá de ser bem identificada, o que implica o envolvimento de um profissional habilitado para fazer esse diagnóstico. O que sempre mais me impressionou sempre foi a violência fria e calculista nalguns adolescentes. Nestes casos, a escola já não dispõe de mecanismos suficientes para levar a cabo tal tarefa e, como não é uma instituição isolada do resto da sociedade, terá de, em colaboração com outras instituições preparadas para tal, de encaminhar os adolescentes para elas. Ainda me lembro de um assalto de contornos violentos, que teve lugar algures no norte do nosso país, estava eu nessa altura a trabalhar numa região do interior do país, quando vários colegas e funcionários me contavam que tinha sido perpetrado por antigos alunos daquela escola, e que eles tinham sido devidamente referenciados mas que nada tinha sido feito por eles, quando, naquela altura, já apresentavam fortes indícios daquilo que se viriam a tornar um dia. Eles haviam-nos reconhecido pelas fotos apresentadas por um canal de televisão. A tristeza e a consternação eram gerais. Uma colega não cessava de repetir que ela se havia farto de avisar os órgãos escolares responsáveis, mas que a sua preocupação não tinha encontrado eco. Quantos mais alunos iremos nós perder com esta passividade? Há que agir, e, na minha opinião, quanto mais cedo melhor… Temos exemplos, vindos dos Estados Unidos, em que professores trabalham somente com alunos de risco, resgatando-os a um futuro cinzento ou mesmo negro, contribuindo, desta forma, para a criação de uma sociedade melhor, onde cada um encontre o seu lugar e possa ser feliz. Será isto uma utopia? Não se houver boa vontade da parte dos responsáveis no sentido de modificar esta situação. Seria, talvez, esta uma forma de diminuir este tipo de violência ou mesmo de o erradicar definitivamente da nossa sociedade.



publicado por fatimanascimento às 00:10
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Terça-feira, 21 de Agosto de 2007
A cultura da indiferença ou… da cobardia!

Não sei o que mais me mete nojo, se a posição de certas pessoas que prejudicam as outras, se a daquelas que, ao testemunharem tudo, nada fazem ou ainda prestam vassalagem aos que fazem mal, como se lhes quisessem mostrar que nada têm a recear deles… Cada vez mais esta posição está espalhada na cultura desta sociedade ocidental, cada vez mais individualista, calculista e hipócrita. O que é mais grave, é que esta posição, muito confortável para quem pensa que não se quer envolver em assuntos que não lhes dizem directamente respeito, está a pactuar com uma sociedade que vive de plástica. Não interessa o que existe de mau dentro dela, toma-se conhecimento, ignora-se e anda-se para a frente. Não interessa, porque não traz prestígio, só vergonha. E ninguém gosta deste sentimento, pois quem tem vergonha, são só aqueles que fazem o mal e são apanhados. Os outros, mais cautelosos, vão medindo cautelosamente os seus actos, tentando deixar os outros na dúvida, quanto à sua verdadeira natureza. São aqueles que não são peixe nem carne – são aqueles que não pactuam com o mal, mas também não se lhe opõem. Compreende-se bem esta posição. Todas as pessoas procuram, nesta vida, ser felizes e não se querem envolver em nada que ponha em perigo essa mesma felicidade, nem que para isso tenha de fazer uma plástica à sua consciência. Então, sem querer, e em nome dessa mesma felicidade, pactuamos, com a nossa indiferença, em todo o mal que acontece no mundo, e do qual nos desresponsabilizamos completamente. Não fomos nós que o provocámos, é certo, mas também nada fazemos para melhorar, ou até modificar, o estado do mundo. Não me refiro a teias venenosas que envolvem de tal forma as pessoas, que elas não conseguem distinguir o bem do mal, mas se tivermos atenção, e se nos interessarmos minimamente, até estas sórdidas teias acabarão por ser descobertas e os culpados descobertos. Mas, para tal, é preciso interessarmo-nos pelos outros, desde que isso não me traga os tão indesejados problemas. Então como agir, se eu quero dar-me bem com gregos e troianos? Fugindo ou fingindo que aquele problema não existe. É uma posição confortável… para quem faz o mal aos outros. Estes estão descansados, porque se algo correr mal, estão a salvo, ninguém viu nem sabe de nada. Quanto aos esmagados, esses, olha, que se defendam! Eu não me vou prejudicar, juntos dos prepotentes, por causa de um indivíduo, de quem eu até já começo já a ter as minhas providenciais dúvidas para mostrar boa cara aos esmagadores. E o que acontece aos poucos que falam? A atitude que deveria ser comum na nossa sociedade, é encarada como a de um verdadeiro herói… que os esmagadores, claro, procurarão desacreditar aos olhos dos outros, de alguma forma, para se safarem, porque há sempre uma forma… assim, é melhor aplicar uma plástica à consciência. O mundo continua mal? Que culpa eu tenho disso? Quando nasci o mundo já era assim… e, depois, eu não sou Deus… Olha, deixa andar… Até que chega a nossa vez de nos vermos confrontados com tão indesejáveis problemas, e, agora, como me defendo? Não posso contar com os outros, uma vez que eles não puderam contar comigo, e estou só… e andamos infinitamente perdidos nesta espiral viciante, sem encontrarmos saída para ela. Então o que fazem as pessoas para se defenderem? Vão por afinidades e juntam-se em grupos… os meus interesses são os teus, por isso vamos juntar forças e lutar para alcançarmos esse fim, seja ele qual for, e só estes têm a força suficiente para atingirem os fins, mas nem sempre os fins são bons…e voltamos à eterna espiral.



publicado por fatimanascimento às 11:24
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