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Domingo, 30 de Agosto de 2015
Fiadores

Os fiadores vêm de uma época recuada da História. Geralmente usurários, emprestavam dinheiro a pobres agricultores em épocas de más colheitas que depois, devido a outro ano de más colheitas, não conseguiam pagar os juros do dinheiro emprestado. Um ciclo vicioso que acabava normalmente mal para o devedor… que perdia tudo!

Ora acontece que, neste país, foi criada uma versão nova do fiador histórico. Só que, desta vez, mais sádica. A classe média, sempre a mais vulnerável, foi a visada. Criou-se assim uma corrente interminável de fiadores cujos bens podem ser delapidados sem dó nem piedade para que os Bancos ou outros organismos e pessoas particulares, geralmente ricas, não fiquem a perder…

Ora quem empresta ou aluga sabe os riscos que corre, mas não quer corrê-los e muito menos assumi-los. Daí socorrerem-se dos fiadores. A situação que estou prestes a relatar, aconteceu comigo…

Há uns anos atrás, uma rapariga pediu-me que fosse fiadora, porque assim lho exigiam, de um aluguer de um apartamento. Resisti o mais que pude, até porque já estava queimada por um ex-companheiro que em seis meses me deixou crivada de dívidas. Após muita insistência, lá assinei o papel. Como nos zangássemos pouco tempo depois, exigi que não usasse o documento. É lógico que o pedido foi ignorado.

Nunca mais soube de tal pessoa, até um advogado me contactar a exigir o pagamento das rendas em atraso. (Já nem me lembrava disso! Para mim, a situação ficara resolvida com aquele telefonema em que lhe exigira que não usasse o documento.) Se bem me lembro, o caso arrastou-se por cerca de dois anos em que a inquilina pagou uns meses e outros não, até ser convidada a sair pelo dono da casa.

Expliquei a minha situação ao advogado do senhorio lamentando que este não tivesse tido a coragem de a desalojar mais cedo, pois desta forma teria aliviado a minha situação. Se fosse apenas um mês ou dois, eu combinaria uma forma de pagamento que não me prejudicasse ou aos meus filhos. Agora, perante uma quantia brutal daquelas, não sabia como proceder. (Nem mesmo sabia se no ano seguinte ficaria colocada. Impossível decidir fosse o que fosse.)

Não poderia recorrer a um advogado, como me foi sugerido, porque me seria impossível pagar os honorários do mesmo. (E, ao que parece, desta forma resolveria facilmente o caso na justiça e a meu favor!) Não poderia recorrer a gabinetes de apoio jurídico porque sendo apenas remediada, não era propriamente miserável.

Fui apanhada desprevenida, em férias, com duas adolescentes a meu cargo, sem dinheiro para comer ou para me movimentar. “Assaltaram” as minhas contas, sem meu conhecimento, e limparam-nas sem dó nem piedade.

Ao que parece, a situação foi apresentada a um juiz que decidiu que era culpada sem mesmo ser ouvida sobre o assunto. É assim a justiça em Portugal para quem não tem dinheiro. E a partir daí, tem sido a regra da caça… Estou a ser furiosamente caçada!

A injustiça reside na culpa que não tenho pelo arrastar da situação. O senhorio, que foi tão prejudicado quanto eu, também teve culpa, uma vez que não a despejou mais cedo. Mas não quis saber disso… Penso que esse dinheiro não era destinado à sua sobrevivência porque, se o fosse, teria tomado uma decisão mais cedo… isso e também porque sabia que havia uma fiadora que pagaria os alugueres em falta…

Ora vivendo eu apenas do meu salário, luto diariamente para levar a vida para a frente o melhor possível. Nunca fui uma pessoa de luxos: sempre vivi em quartos alugados com a minha filha mais nova, quando leccionava fora da localidade onde vivo, sempre dividindo as despesas com os outros ocupantes dos demais quartos, e vejo-me agora confrontada com uma dívida que não me pertence directamente…

Ter fiador foi uma imposição criada por lei… Alguém, não sei exactamente quando, decidiu que alguns de nós deveríamos ter fiadores. Desta forma, a classe média está encurralada entre uns salários que serão dos mais baixos da Europa, uns impostos altos para os salários que auferem (se os comparamos com os outros europeus), e os fiadores que são obrigados a ter porque uma lei assim decidiu, e porque os mais ricos não podem ficar a perder… só os remediados e os pobres. E o que acontece? Pois, geralmente os fiadores ou são amigos ou familiares dentro da mesma classe remediada, o que a vai empobrecendo cada vez mais…

Só me resta pagar ou pagar ou pagar e ainda uma quantia que não fui eu que determinei… só me resta uma consolação… Pode ser que haja por aí um advogado que, por uma vez na vida, queira fazer justiça em vez de ganhar apenas dinheiro com ela… e me ajude!

O que se pode aprender com esta situação? Um aviso à classe média que vive diariamente com a corda ao pescoço – não vivam acima das vossas possibilidades, não queiram fiadores… e comprem apenas quando têm dinheiro para tal – sem empréstimos!

O capitalismo incentiva ao consumismo mas essa é a perdição de qualquer ser humano sobretudo daqueles que têm pouco… Não há mal em não ter… o mal está em dever!

Sei que sou uma pessoa materialmente desligada, mas só assim se consegue sobreviver à sociedade injusta em que vivemos. E quando não compramos estamos só a prejudicar os que mais têm… e não a nós!

Podemos sempre começar por não necessitar dos fiadores… para não nos comprometermos a nós próprios e aos outros!



publicado por fatimanascimento às 22:46
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