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Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008
A pretensão do ser

Tenho uma amiga extraordinariamente inteligente e sensível, que passou grande parte da sua vida a ajudar os outros. Desde familiares a conhecidos e amigos, todos foram tocados por aquele coração grande e profundo. A inteligência dela nunca precisou de provas, mas, inexplicavelmente, era precisamente a ela que exigiam essas provas. Incompreensivelmente, alguns membros da sua família, mesmo reconhecendo as suas qualidades intelectuais, sempre as negaram rotundamente comparando-a sempre depreciativamente com a irmã mais nova, ou dizendo em voz falsamente meiga, de quem finge que gosta, que o que ela conseguia devia-o a alguém. Nunca ela desconfiou do que se passava verdadeiramente à sua volta. Muito agarrada afectivamente à família que visivelmente não a merecia, ela sempre superou aqueles ataques, umas vezes velados outras vezes abertos, sem compreender exactamente o que se passava. Foi mais recentemente que estes ataques se tornaram mais frequentes e mais mortíferos. Chegaram a cortar-lhe o seu meio de subsistência, quando ela se encontrava só presa por umas cadeiras do último ano de faculdade. Passou um pouco por tudo. Para além das humilhações tão frequentes, vindas agora de todas as partes, a fome e as crises de depressão, quase acabaram com ela. Sobraram-lhe algumas, muito poucas, pessoas. Mesmo algumas dessas acabaram por a lesar de alguma forma, com palavras que ela não merecia. Agarrou os trabalhos que estavam ao seu alcance. Como todas as pessoas de alma grande e de grande valor, ela nunca se deu muito valor. Talvez porque tudo o que ela conseguia tão naturalmente, os outros obtinham-no com mais dificuldade, que ela sempre ajudava a superar, como se fosse algo natural, que lhe corresse no sangue. Um dia, ao falar com uma determinada pessoa do seu círculo de conhecidos e falando de si de uma forma simples e despretensiosa, como sempre fazia, ela reparou no efeito negativo que estava a provocar no seu interlocutor. A partir desse momento, ela observou outras pessoas, que não tinham metade do seu valor, reconhecia ela, na sua habitual forma de ser simples e despretensiosa, e percebeu na forma como elas se insinuavam junto dos outros, deixando-os deslumbrados. Aí, infelizmente, ela percebeu que se quisesse fazer passar a sua mensagem de forma eficaz, ela teria de usar as mesmas armas. A pessoa tem de se valorizar diante dos outros para que eles lhe dêem valor! Não basta ter valor, temos de fazer a pessoa acreditar nesse valor. Uma espécie de marketing pessoal para promoção da própria imagem. Aqui, podemos ver a sociedade que criámos, só agarrada ao parecer esquecendo-se que o fundamental é o ser. Agora, das duas uma: ou pactuamos com esta regra já institucionalizada nas relações humanas e contribuímos para esta palhaçada que se tornaram as relações humanas, ou demarcamo-nos pela diferença, continuando a seguir essa forma simples e despretensiosa de ser e sofrendo as consequências que daí advêm. A sociedade é clara na sua mensagem: ou te juntas a nós ou ficas sozinho, ou segues as regras ou perdes. Eu sei qual é a minha posição nisto tudo… mas não posso criticar quem, depois de já ter sofrido muito e aprendido, tenha, para se defender, nem que seja só neste caso de sobrevivência, de pactuar com essas mesmas regras. Fazer o quê? As pessoas não vêem mais e nem querem ver. Uma coisa é certa - nem ela (nem ninguém!) precisa de agir dessa forma comigo. E, quem já tentou, já sabe o resultado… eu desmonto toda a fachada e a pessoa acaba por cansar-se! Mas também há os falsos modestos que tentam, desta forma, passar a mensagem que não passa da outra forma. Nem assim dá comigo! A pessoa tem de ser aquilo que é, sem artifícios.

 

 



publicado por fatimanascimento às 11:07
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