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Sábado, 13 de Janeiro de 2007
Profissão e família

Cada vez é mais difícil neste país equilibrar este binómio: profissão e família. Não só as famílias estão a perder regalias no que respeita ao tempo que têm para dedicar a si próprias, como também poder de compra (não é novidade nenhuma que cada vez mais os nossos salários, salvo raríssimas excepções, não acompanham o aumento de custo de vida) e também o direito de assistência à família em caso de doença, pois, embora a lei proteja esse direito, ele é-nos retirado, de facto, no dia-a-dia pelas exigências profissionais...  Ora se juntarmos a estes outros problemas tais como os empregos longe da localidade de residência, as famílias monoparentais, os problemas de saúde dos pais e os problemas de saúde dos filhos menores, os problemas de saúde do profissional o facto de se ser professor e a perseguição que lhes fazem os pais, estimulada pelo próprio M. E. que teve o mérito, entre outros, de denegrir a profissão... torna tudo mais complicado. Hoje em dia, faltar ao trabalho, ainda que essa falta esteja devidamente justificada, é encarada como um crime, pois os professores, segundo a ideia espalhada por aí, faltam porque e quando querem... e nada mais longe da verdade! Como todos os profissionais de outros ramos, todos temos família... e ela precisa de atenção, e quem a tem deve dar-lhe atenção ou então não vale a pena tê-la...  e, quanto mais não seja, apoiando-a na doença... Ora desde já há algum tempo, que me deparo com casos caricatos... Antes de me casar e constituir família, devo dizer, em abono da verdade, que quase nunca faltei. Depois do nascimento do meu filho mais velho, que nasceu com uma cardiopatia grave, vi-me obrigada a deslocar-me regularmente a Coimbra para controlo médico, e depois do cateterismo que lhe fizeram aos seis meses, e tal como os especialistas me haviam dito, ele apanhou todas as doenças e mais alguma, o que me obrigou a recorrer à pediatria do hospital mais próximo, onde ele chegou a estar internado por várias ocasiões... Ainda por essa altura, e foi-lhe diagnosticada uma doença crónica de rins (cistinúria), que originou a formação de cálculos renais e consequentes infecções urinárias... Ora, houve alguém que, sabendo ou ignorando a minha situação, resolveu telefonar anonimamente para a escola, dizendo que eu podia ir trabalhar e que não o fazia porque era, passo a expressão, uma "calona"... Já se pode ver a enorme confusão que este telefonema veio causar! Aos três anos, ele foi operado aos rins e, aos cinco, ao coração. No dia três de Dezembro fez o cateterismo e, no dia cinco, teve lugar a operação. Fomos os dois sozinhos, de carro, e como não arranjámos lugar no parque de estacionamento, tivemos de deixar o carro cá fora e levar os sacos à mão. Ele levava os mais leves na mão e eu os mais pesados. O caminho parecia interminável, tal foi o número de vezes que tivemos parar, ora eu ora ele! Depois da convalescência hospitalar, seguiu-se-lhe a do lar. Tal como acontecera com a operação a ambos os rins, ele já andava e desaprendeu, ele teve de "reaprender" a andar... estive três meses de baixa ou mais... durante esse tempo, a escola comunicou-me que eu teria de ir a junta médica... eu?! Os médicos para nos evitarem o risco da ida à junta médica, pensando na saúde  e sofrimento da criança, passaram-me os atestados ora em meu nome ora no dele... Mais tarde, quando tinha seis anos foi atropelado numa passadeira por um carro e bateu com a cabeça no lancil do passeio... e foi de helicóptero para Lisboa. Mais dias de baixa... Hoje em dia, a saúde dele está mais estável e as idas a Coimbra só para consultas de rotina: nefrologia, estomatologia, cardiologia e psicologia. O ano passado, a actual ministra da eduducação, achou que as crianças com mais de doze anos podiam ir sozinhas a consultas. Eu pergunto-me como é que eu digo a um filho meu menor "Toma lá dinheiro e os cartões e vai a Coimbra à consulta tal... E cuidado não te percas, e vê se não és roubado..." ou então a dizer à minha filha do meio que tem doze anos e está cheia de febre "Levanta-te cedo e vai ao centro de saúde ver se tens consulta, caso não tenhas vai ao hospital, à urgência... Alguém se vê com coragem para fazer isto? Ora nós moramos fora da localidade, não há transportes públicos, parte da estrada onde passamos não tem passeios, é estreita e isolada, passam camiões...  Felizmente, ela parece ter o erro de tal decisão e voltou atrás. Ora, eu, quando falto, tenho um motivo forte, o último foi o carro... com uma avaria que, a contar da data da mesma, até à chegada da peça encomendada e à reparação, durou quatro dias... a minha sorte foi os meus pais emprestarem-me o deles para poder ir trabalhar, senão... Mais recentemente, e por motivos de saúde já tive de faltar algumas vezes, e como tenho uma turma do cef e o ministério da educação prevê que se dêem todas as aulas previstas (mesmo quando elas não são necessárias!) e como parece não ter previsto as faltas que os professores muito justamente têm de dar... está a escola num impasse, porque tem de obedecer às normas ditadas pelo ministério! Eu vou repor o número de horas escolhidas não sei por quem e que talvez nem façam falta, uma vez que o problema da turma não é de ordem cognitiva mas comportamental, devido ao défice de atenção que caracteriza os alunos... mas, quando tiver de faltar, eu falto e, se me quiserem despedir, não faz mal... é então que eu me decido, de uma vez, a emigrar em busca de outras paisagens mais justas... porque estou farta destes governantes que só exigem sem se lembrarem das justas contrapartidas! Também há outra solução para todos: quem quiser casar e ter família escolhe outra profissão. Já viram papéis a protestar?



publicado por fatimanascimento às 10:33
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